UMA LUZ NA TREVA
Os dias se tornaram indecifráveis. Existir neste plano árduo só me traz Trevas e frio – duas coisas com as quais eu tive que me reacostumar ao ser banida e relegada a este lugar infernal. Aonde quer que eu vá, o orbe brilhante me segue. Ele me persegue.
Aprendi a cantarolar uma música para afugentar a loucura. Não que eu goste, mas ajuda. Já funcionou antes, quando eu estava presa sob a superfície lunar. Os Possuídos e a Colmeia correm soltos por aqui. Estão por todos os lados. Não estou em condições de me defender. Minha mente luta para continuar alerta. Eu só preciso descansar. Só um pouco...
Uma luz intensa me desperta. O orbe cintilante? Sua luz está me chamando.
Não. Pare com isso. Estou perdendo a razão outra vez. Volto a cantarolar.
"Eris!"
Estou ouvindo coisas. Ou pior. É a Bruxa outra vez.
"Eris!"
O orbe se aproxima. Será possível?
Não consigo suportar a luz. Desmorono escuridão adentro.
Estou acordada — acho. Mas parece que estou dentro de um sonho.
"Você esteve com a Bruxa-Rainha e sobreviveu."
Não sei se esta conversa que estou tendo com Toland é real ou se é tudo fruto da minha imaginação.
"Mas não cheguei nem um pouco mais perto de descobrir as maquinações deles."
"Diz para mim, o que ela te falou?"
"Ela me provocou com charadas. Usou vocês, todos vocês, deturpando suas vozes... eu cheguei perto de algo. Sob a superfície. Adormecido."
"Interessante."
Pode até ser, mas eu preciso encontrar uma saída. Preciso continuar, a despeito da dor.
"Aonde você pensa que vai? Você não está em condições nem de se mexer."
"Preciso continuar. Preciso."
"Você diz isso para se motivar, ou está cega pela sua obsessão?"
Isso me dá a certeza de que ele é real.
"Não está curiosa para entender o que estava adormecido sob a superfície? Eu estou, com certeza."
Ele consegue capturar o meu interesse. Vou me permitir este momento de descanso.
"Continue."
"O tempo que passamos na Boca do Inferno... ainda há que ser examinado com mais atenção. Ando passando muito tempo pensando no nosso fracasso glorioso. Nunca consegui digerir o que aconteceu."
"Imagino que morrer tenha esse efeito nas pessoas."
"É verdade, mas é mais do que isso. Em nosso esquadrão havia alguns dos melhores guerreiros que já empunharam a Luz e, no entanto, fomos dizimados com a maior facilidade."
"Eles tinham armas... nós não estávamos preparados."
"Isso é um fato, mas essas circunstâncias não te incomodam?"
"Tudo isso me assombra até hoje. Hesito em acreditar em qualquer coisa que Ela possa dizer."
"Mas por que Ela diria qualquer coisa que seja?"
Um questionamento válido.
"...Ela deveria me guiar, Toland."
"Não deixe que Ela te manipule."
"Você dá crédito demais às charadas Dela. Precisamos descobrir a verdade, custe o que custar."
"Muito cuidado, Eris. Ou vai acabar tendo o mesmo destino que eu. Ou pior!"
"O meu fardo é o mesmo, como sempre."
"Infelizmente."
"Tem que haver..."
Uma luz ofuscante e, mais uma vez, não consigo enxergar nada. Ouço Toland me chamando, mas algo me arranca dali, de perto dele.
Está ficando quente. E claro. Muito claro.
"CLIQUE."
Sinto que estou sob a mira das armas deles.
Estou cercada.